domingo, 22 de janeiro de 2012

O ABRAÇO DE UM NÁUFRAGO




ABRAÇO DO NÁUFRAGO
21/01/12

Me encosto no batente da porta da cozinha e contemplo a dedicação com que ela prepara os temperos sobre o mármore para a janta. Logo se dá conta da minha presença embevecida e diz sorrindo: “Que é?... Bobo”; e continua seu afazer com a mesma diligência. Me aproximo lentamente por trás, com o rosto em meio aos cabelos e abraço-a, como um náufrago a uma tábua a deriva.

Um abraço de um náufrago em meio ao oceano de barbaridades cometidas pelo ser humano contra seu semelhante, em particular contra as maiores vítimas, as mulheres da base piramidal de TODAS as sociedades, que sofrem toda sorte de injustiças no dia a dia, quer sejam por pertencerem a culturas atrasadas, quer por governos déspotas e seus inconfessáveis interesses.

Abraço a mulher “saarauí” em sua sina de exilada nos acampamentos carentes no nordeste da Argélia;

Um abraço fraternal a todas as "mulheres de preto" do Iraque, que perderam milhares de maridos ou filhos só por serem de um país rico em petróleo;

Um abraço de perdão; pelo humanismo de tão ilustres páginas, mas cinicamente falido; às mulheres em cotidiano desespero por algo para comer para seus esquálidos nenéns na Somália;

Um abraço em lágrimas a mulher “Tutsi”; sobrevivente do mais cruel e revoltante genocídio em tempos atuais, 400 mil mortos, em Ruanda; que teve toda sua família e filhos assassinados a catonadas;

Um abraço de vergonha prostada pelas jovens adolescentes que já se prostituem por comida nos acampamentos das vítimas do terremoto no Haiti;

Um abraço especial às mulheres das favelas e palafitas mundo afora, da América Latina a “Mumbai” na Índia, país de Deuses e cultos milenares;  

Um abraço envergonhado da falida dignidade humana, aviltada em gabinetes luxuosos, em conferências pomposas, em fóruns cínicos e hipócritas; a todas as mulheres exiladas, fugidas de conflitos étnicos, políticos; em que só os pobres sofrem; com seus filhos no colo ou agarrados a saia.

“Para, que você tá me atrapalhando...” diz ela rindo e se encolhendo das minhas carícias. Vou à geladeira, pego a garrafa de vinho branco e encho duas taças. Proponho um brinde: “Vamos brindar a que?”, ela pergunta. Respondo que é um brinde a derradeira tábua encontrada por um náufrago a deriva. Ela ri e diz que ando vendo muita Internet e que o “Costa Concórdia” tá me fazendo mal, enquanto damos alguns goles no gostoso branco gelado. 

-----------------------------------------------------------------

Nenhum comentário:

Postar um comentário